
No Brasil, Congonhas/SP e Santos
Dumont/RJ possuem restrições quanto ao horário de funcionamento, mas nem sempre
foram assim. Na época do saudoso Electra que voava na Ponte Aérea, Congonhas
operava sem restrições durante a noite e madrugada. Eram outros tempos e exceto
numa eventualidade, não havia movimentação de pousos e decolagens após a meia
noite. Mesmo assim o aeroporto estava aberto e durante anos, tomar um cafezinho
na madrugada era um bom programa na noite paulistana.
No início dos anos 90, Congonhas passou a
ter as operações suspensas das 23hs às 06hs da manhã do dia seguinte, medida
bastante acertada em função do nível de ruído provocado no entorno do
aeroporto. Só quem mora na rota de pousos e decolagens ou nas proximidades do aeroporto
sabe o que é ter que esperar o avião passar para poder ouvir alguma coisa.
Os pilotos dos voos cujo horário de chegada
era próximo do horário de encerramento das operações passaram a ter uma preocupação
a mais: não permitir que um atraso comprometesse o estimado de chegada,
obrigando a um desvio para Guarulhos. No período em que eu voei o 737 na Ponte
Aérea, principalmente naqueles dias de chuva e fechamento momentâneo do
aeroporto, era uma correria tremenda para pousarmos em São Paulo antes das onze
da noite. E chegava a ser divertido também. Houve ocasiões em que pousei no
Santos Dumont pouco antes das dez da noite e, com toda a equipe de terra
(despachantes, descarregamento e carregamento de bagagens, mecânicos,
abastecedores, limpeza e abastecimento de material de comissaria) e de voo,
preparada e motivada, conseguíamos aprontar e embarcar rapidamente os
passageiros de forma a decolarmos em tempo para pousar em São Paulo antes que
Congonhas encerrasse as operações. Para isso era necessário que em voo
“atalhássemos” a rota ao máximo possível; cada “proa direta” que o controle de
tráfego aéreo autorizasse era bem vinda, cada pequeno aumento na velocidade era
uma ajuda. Decolávamos do Rio de Janeiro
estimando o pouso às 23:05hs e pousávamos às 22:56hs!
Até o começo dos anos 2.000, o horário de
encerramento de Congonhas podia ser “flexibilizado” com o aval da autoridade
aeronáutica. Quando necessário, o representante da empresa aérea entrava em contato
com a autoridade (um Coronel da Força Aérea responsável pelo controle de
tráfego de Congonhas) e a autorização era dada ao piloto. Em certas ocasiões,
voando do Rio para São Paulo, tínhamos que reduzir a velocidade enquanto
aguardávamos a autorização para pousarmos além das 23hs.
Cada vez que um avião pousava após as onze
da noite os moradores dos bairros em volta de Congonhas protestavam e logo
conseguiram uma liminar judicial que
proibia qualquer extensão no horário de funcionamento de Congonhas. Não tinha
mais “choro”, horário era horário! E quem passou a ditar a hora certa foi a
Torre de Controle de Congonhas! Houve muita discussão e bate boca na fonia
entre pilotos e controladores, já que por diferença de um ou dois minutos,
decolagens e pousos foram negados pela Torre de Controle. Nos meses do chamado
“apagão aéreo”, após o acidente com o Airbus da Tam, houve uma nova autorização
para flexibilizar as operações em Congonhas; me recordo de um voo em que
decolei para lá de meia noite!

Uma semana depois eu estava como
número um para o pouso em Congonhas. O controle deixou a nosso critério
planejar o momento de interceptar a aproximação final, mas pedia para agilizar
ao máximo possível. Fomos planejando o percurso da aproximação e controlando a
velocidade para pousarmos o mais próximo das seis, mas de forma alguma antes
das seis. Não foi um bom planejamento, pousamos às 06:02hs, mas foi melhor assim.
Vejam no YouTube a discussão entre pilotos e controladores: https://www.youtube.com/watch?v=66QLGCAHBkQ
Vejam no YouTube a discussão entre pilotos e controladores: https://www.youtube.com/watch?v=66QLGCAHBkQ