No final de janeiro tive uma programação para decolar de Guarulhos para Porto Alegre por volta das 4 horas da tarde. Bem no horário previsto para a tempestade. Saí de casa com uma antecedência maior, já de olho no céu, observando as nuvens crescendo e prometendo mais um dia de caos na Paulicéia Desvairada.
Alguém já disse que a única parte realmente perigosa da aviação é o trajeto de casa para o aeroporto e vice-versa. Uma grande verdade! Com os vidros fechados e ar-condicionado ligado, afinal a temperatura já marcava 33 graus, segui meu caminho. O percurso foi tranqüilo, com o trânsito habitual na Marginal Tietê, e um motoqueiro que passou batendo no retrovisor, sem maiores prejuízos.
Em Guarulhos, já com os passageiros embarcados, fomos para a cabeceira da pista em preparativos para a decolagem. Tanto pelas imagens do radar meteorológico quanto pelo visual, podíamos observar que sobre a cidade de São Paulo, e portanto, sobre o
Até Porto Alegre o vôo foi tranqüilo, com poucos desvios e nenhuma turbulência. Na descida, já nos preparamos para um possível mau tempo. A temperatura na área da pista de pouso de POA já marcava 39 graus, e estando a pressão atmosférica bem abaixo da normal, sabíamos que em breve a cidade estaria de baixo de uma tempestade.
Encontramos algumas nuvens de chuva no segmento de descida, um pouco de turbulência moderada, e seguimos nos aproximando do aeroporto. Para a performance do avião, o ideal é uma condição de baixa temperatura e alta pressão, pois assim, com o ar mais denso, o desempenho do motor é melhor. Além disso, a própria pilotagem fica mais fácil com o ar menos rarefeito. Mas as condições eram justamente opostas, e na aproximação final o avião sacolejava, lutando contra o vento forte que vinha pela esquerda e levemente de cauda. Normalmente pousamos e decolamos com vento de frente, sendo que o vento de cauda é permitido dentro de certos limites. O fabricante impõe um valor, e a empresa aérea ou aceita, ou reduz ainda mais o limite de componente de cauda permitido nos pousos e decolagens.
Tira a potência, ace
Nestas condições, não se espera um pouso macio, apenas um pouso firme e seguro. Mas é incrível que como a adrenalina é alta, frequentemente conseguimos pousos excelentes nestas condições.
Ao tocar com as rodas na pista, uma surpresa: Um dos reversores não está atuando! Por três segundos ou menos, fiquei “brigando” com a manete, tentando movê-la para a posição de reverso. Então vem um comando interno do cérebro que me diz para deixar de lado a manete que não está atuando e usar o reverso restante. Freios aplicados, um reversor somente e em seguida já estamos livrando a pista em velocidade baixa.
Neste caso, se o reverso não atuou foi porque o sistema que monitora e detecta possíveis falhas ou anormalidades do reversor, percebeu algo e por segurança manteve o comando bloqueado. Na verdade, nos cálculos de performance de frenagem, o reverso não é computado, é apenas um benefício a mais. Informamos o ocorrido à manutenção, que em pouco menos de 30 minutos efetuou as verificações e procedimentos para a normalização do reversor.
De Porto Alegre o vôo seguia para Brasília, e queríamos decolar no horário previsto, pois a tal da nuvem negra se aproximava. Decolamos, deixando para trás a tempestade que não tardou a chegar sobre o aeroporto. Cinco minutos após nossa saída a torre informa que o aeroporto estava fechado devido à chuva forte!
Até Brasília o vôo foi fácil, com alguns desvios sobre a região de Bauru, no interior de São Paulo. A 60 quilômetros além do aeroporto de Brasília, nuvens pesadas e cheias de raios e atividade iluminavam o horizonte. Elas estavam longe, e tivemos uma chegada fácil na Capital Federal. No regresso a São Paulo, as nuvens que tanto transtorno causaram ao paulistano naquela tarde já tinham se dissipado, e as 23:40 hs, pousamos tranquilamente em Guarulhos.
Agora só falta a parte perigosa da aviação: Voltar para casa de carro! Será que ainda há pontos de alagamentos na cidade? Congestionamentos e semáforos queimados? Árvores caídas, crateras nos asfalto e ruas interditadas? Respirei fundo e segui em frente.















