
Programar e efetivamente conseguir
descansar adequadamente antes de cada voo é um verdadeiro desafio na vida de um
tripulante. Os ciclos de descanso e vigília a que estamos sujeitos são muito
inconstantes.
Vejamos uma situação típica:
O primeiro
dia de uma programação começa com a decolagem no final da tarde e encerra às
duas e meia da manhã. Você segue para o hotel e quem sabe consegue dormir às
quatro da manhã. Os mais jovens conseguem esticar o sono até meio dia ou além.
Os mais velhos (meu caso) dificilmente conseguem ir além das dez da manhã. No
segundo dia a condução está marcada para as duas da madrugada então você deve
dormir bem cedo. Mas quem disse que o corpo consegue? Afinal de contas, no dia
anterior este era o período de vigilância! Serão 4 ou 5 dias trocando a noite
pelo dia, e ao chegar em casa você está cansado, seu ciclo circadiano confuso. É
necessário mais de uma folga para as coisas voltarem ao normal.
A programação
seguinte também é uma daquelas que você gostaria de ter em seu corpo um botão
liga/desliga. Com decolagens entre 5 e 6 da manhã, o despertar será cedo, bem
cedo. Um dia de folga e há uma nova programação, agora com voos decolando à
noite. O corpo não entende; agora nada de dormir cedo, pelo contrário, a vigília
terá que ser até o nascer do sol!
Não
é fácil. Cada um tem sua estratégia e a que mais funciona é aquela que diz para
não deixar para depois a dormida que pode ser realizada agora! E se há a
estratégia para dormir, há também para se manter desperto durante os voos:
comer é algo que se pode fazer na hora que o silêncio e escuridão da cabine de
comando estão fazendo seus os olhos fechar. O problema é que este método
engorda. Uma solução é levar um punhado de mexerica ou outra fruta bem
perfumada. Café e chá são os clássicos da madrugada e há vários métodos para se
preparar um bom cafezinho. Numa destas viagens, quando o sono de um estava
contagiando o outro, o copiloto me ofereceu um café passado na hora; fez um
furo embaixo de um copo de plástico e com um coador de papel improvisou um
filtro. Ficou ótimo o café e nos manteve desperto, pois todo este processo
levou tempo.
Ler é uma boa atividade, mas cuidado: dependendo
do conteúdo a leitura poderá aumentar ainda mais o sono e por outro lado, se a
leitura estiver muito boa, o nível de atenção ao voo vai cair um pouco. Vale
tudo; ficar em pé, ir ao banheiro, acender a luz da cabine, conversar e até,
dependendo das condições do voo (tempo bom, sem turbulência) e do seu
companheiro na cabine de comando, dar um cochilo.
O que me consola ao me ver acordado na
cama, quando deveria estar dormindo, é que tem dado certo. Nestes anos todos, com
ou sem o descanso apropriado, sem ter o tal do botão liga/desliga, eu chego ao
final da programação achando que até que não foi tão terrível assim. Acho que é
o instinto de sobrevivência.