Ah! Bons tempos aqueles quando além dos dois pilotos havia também o engenheiro de voo na cabine! O engenheiro de voo, o FE -flight engineer- também chamado de mecânico de voo, esteve presente na cabine de comando dos grandes aviões comerciais por muitos anos até que a tecnologia tornou sua presença desnecessária. Eu tive a sorte de voar dois aviões em que o FE fazia parte da tripulação e só tenho boas recordações.
O outro avião que eu voei com “flight” foi o Airbus A-300. Um avião espetacular, que ao contrário do Electra que o não tinha um painel exclusivo para o FE, o A-300 possuía um painel lateral de onde operava os diversos sistemas do avião. Este painel, que possuía uma mesinha e uma gaveta, era também conhecido por “penteadeira”. Durante as decolagens e pousos o “flight” deslizava sua cadeira se colocando de frente para o console central dos pilotos auxiliando no ajuste e monitoramento da potencia, mas durante o voo ele sentava lateralmente cuidando do seu painel. Naquela época, voando o Airbus com o pessoal oriundo da Cruzeiro, havia duas gerações de FEs; os da “velha guarda”, com mais de cinquenta anos de idade e os mais novos com pouco mais de trinta anos. As estórias que eles contavam eram muito divertidas, não tinha monotonia na cabine.
Em 1986 estava claro que a presença dos FEs na cabine de comando de aeronaves comerciais estava chegando ao fim, já que após o lançamento do Jumbo 747-300 no final de 82, não havia nenhum outro projeto de avião com o terceiro homem na cabine. Muitos deles, em parte por perceber a ameaça ao emprego num futuro próximo e em parte por um desejo genuíno, tiraram as licenças para se tornar pilotos e após uns anos voando na função de copiloto foram promovidos a comandante.
O Electra foi um deles, aliás, alguns diziam que o Electra podia voar sem o copiloto, talvez até sem o comandante, mas não sem o FE! Embora o comandante fosse o responsável, era atribuição do FE o monitoramento de uma serie de parâmetros, tais como temperaturas, RPMs, pressões, voltagens e amperagens de cada um dos quatro motores. Como os Electras eram aviões antigos e sem qualquer dispositivo eletrônico para coleta de dados dos motores, durante o curto trajeto da Ponte Aérea o FE tinha que anotar em uma planilha uma serie informações de consumo de combustível para que posteriormente a área de engenharia da manutenção pudesse acompanhar o desempenho de cada um dos motores. Trabalhavam muito os FEs do Electra, tanto é que eles dificilmente acompanhavam o comandante e o copiloto nos passeios pelo saguão do aeroporto.
Com um conhecimento de mecânica (motores, hidráulica, sistemas de combustível etc.) mais abrangente que o dos pilotos, voar com eles na cabine era um conforto e uma segurança adicional. Também era responsabilidade deles a leitura de check-lists, análise de tabelas, preenchimento de cartões de performance e anotações burocráticas nos livros de bordo. Durante o tempo de solo eles desciam para verificar as condições da aeronave (a inspeção externa) e mantinham um contato estreito com o pessoal da manutenção.

Para os pilotos a presença do terceiro homem sempre foi sinônimo de segurança, mordomia e companhia.
Embora não houvesse necessidade de possuir uma formação em mecânica, a maioria dos “flights” eram mecânicos de aviões ou comissários de bordo que um dia tiveram a oportunidade de passar para a cabine de comando.

Apesar de quase trinta anos sem que novos aviões com FEs sejam fabricados, alguns dos antigos aviões continuam voando pelos céus do mundo, em sua maioria aviões convertidos para o transporte de carga.