Confiar na
manutenção é fundamental para que o piloto se sinta seguro antes de uma
decolagem. Não importa o avião, seja um pequeno monomotor, um tubo-hélice ou o
maior dos aviões comerciais, é essencial que os serviços preventivos e
corretivos sejam realizados absolutamente de acordo com normas aprovadas pelo
fabricante do avião, da empresa que realiza o serviço e finalmente da
autoridade aeronáutica.
Nos meus
primeiros anos de aviação, período em que voava nos aviões do aeroclube, não
tive nenhum problema de manutenção. Ainda bem, pois se tem uma área crítica
para se voar de monomotor é sobre a cidade de São Paulo. Se após a decolagem do
Campo de Marte houver falha do motor, o piloto dificilmente vai encontrar um
local para um pouso de emergência. Em meus
voos para a região de Jundiaí e Atibaia, até que a Serra da Cantareira ficasse
para trás, o nível de alerta era grande, sempre de olho em um possível local
para “jogar” o avião em caso de parada do motor.
Nesta
questão da confiabilidade da manutenção, a Varig foi um gigante! Confiávamos
nos aviões e mesmo nos últimos anos da empresa, quando os recursos materiais
estavam escassos, acreditávamos nos serviços realizados.
Os Electras
da frota da Varig eram a melhor prova da seriedade com que os mecânicos cuidavam
das “garças”. Foram 30 anos sem qualquer acidente causado
por problemas de manutenção, o máximo que aconteceu foi uma ocasião em que o
trem de pouso do nariz não abaixou de jeito nenhum e o pouso teve que ser
realizado no aeroporto do Galeão. Naquele dia, apesar da tensão e dos danos
resultantes do efeito do nariz e hélices raspando na pista, o pouso foi um
sucesso. O cuidado com os Electras era tão grande que até peças a Varig estava
autorizada a fabricar, uma vez que se tratava de um avião que há tempos já não
era mais fabricado! Além de simples acabamentos e revestimentos internos, a
Varig fabricava atuadores, tubulações, dutos e outras peças para os motores.
Dava gosto passear pelos hangares em Congonhas e ver as enormes hélices
passando por serviços de revisão.
A Varig
também foi pioneira na área de informática. Já no final da década 70 e nos 80s, quando havia uma dificuldade de
importação de computadores, a Varig, através do setor de aviônica e
informática, fabricou seus próprios computadores para os setores de compras e
reservas de passagens. Era a TEVAR – Terminais Varig- computadores enormes com telas
verdes e letras miúdas que eram sinônimo de alta tecnologia e informatização.
Em 1991,
logo nos meus primeiros meses como comandante de 737, tive uma experiência
muito interessante. Estava em Uberlândia e durante a inspeção de trânsito,
quando entre um pouso e uma decolagem o mecânico efetua uma breve inspeção de
rotina, foi detectado um pequeno vazamento de óleo do motor. O vazamento, segundo o mecânico, parecia ser
bem pequeno e ele acreditava que dava para efetuar a ultima etapa de voo até
São Paulo onde o serviço corretivo poderia ser realizado. Por via das dúvidas,
iríamos efetuar um “run-up” do motor (dar a partida e manter o motor girando por
um curto período) para, com as capotas abertas, verificar a extensão do
vazamento. Naquela noite eu estava acompanhado de outro comandante, que embora
estivesse entrado na empresa há poucos meses, era bem mais experiente que eu,
pois tinha sido comandante na Transbrasil, assim, enquanto ele deu a partida no
motor eu fiquei com o mecânico verificando a situação. Foi incrível estar
posicionado entre a capota lateral e o próprio motor, que ao ser acionado fazia
um barulho tremendo! De fato, o vazamento era bem pequeno, quase nada. Antes de
deixar Uberlândia ligamos para a central da manutenção, que ficava no Rio de
Janeiro, e com a aprovação deles seguimos para São Paulo.
A central de
engenharia de manutenção da Varig, que ficava no aeroporto do Galeão/RJ era um
espetáculo à parte. Um hangar enorme que acomodava em seu interior dois Jumbos
e mais alguns 737s ao mesmo tempo. A Varig efetuava a manutenção de seus aviões
e de outras empresas também, havia diversos setores referentes aos sistemas dos
aviões; setor de revisão de trem de pouso, hidráulica, aviônicos, motores e
etc.
Nos últimos
anos da Varig a quantidade de itens pendentes constante nos livros de bordo dos
aviões aumentava a cada dia. Estes itens pendentes são aqueles panes ou itens
inoperantes em determinado sistema ou instrumento, que não impedem que a
empresa realize um voo. Estes itens, constantes do MEL (minimum equipment list),
podem estar associados a determinados procedimentos que os pilotos e a
manutenção devem observar e cada item tem um prazo determinado para que seja
solucionado. No ano de 2005 e 2006, ao abrir o livro de bordo do MD-11 durante
o pré-voo, podíamos encontrar vários itens pendentes e nestas ocasiões quase
sempre o supervisor da manutenção comparecia na cabine de comando. Analisávamos
cada um dos itens vendo as implicações que poderiam causar. No final, para
selar a segurança e seguindo uma dica da minha mulher, perguntava ao supervisor
da manutenção se ele embarcaria a própria mãe naquele avião!