quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Meu amigo Ronald Ruthner

Em 1989, um Airbus A-300 efetuou um pouso de emergência em Fortaleza, pois o trem de pouso do nariz não baixou. Este avião havia decolado sem passageiros ou carga, pois tinha um problema de manutenção e estava se deslocando para o Galeão para efetuar os serviços necessários nos hangares da Varig. Conversei com o co-piloto do vôo, (que hoje é Comandante) o meu colega Ronald Ruthner. Ele me escreveu um relato, e tomei a liberdade de dar uma pequena editada. Segue então o que aconteceu:

Naquela noite iríamos fazer o vôo 320 (Fortaleza-Rio de Janeiro, com escalas), porém fomos avisados que o Airbus prefixo PP-VND estava com uma pane, e o voo iria operar de B767. Ficamos aguardando em Fortaleza e mais tarde veio a confirmação para efetuarmos o translado do VND pra GIG.

A decolagem foi efetuada pelo Cmt Neto Júnior, e quando comandei o recolhimento do trem de pouso, ficou acesa a luz de trânsito do trem de nariz, indicando uma falha no sistema de recolhimento. Tratamos de voar o avião, recolhendo os flapes normalmente para então efetuar os checklists referentes àquela pane. Efetuamos o procedimento, que era para abaixar novamente todos os trens de pouso. Então a coisa começou a tomar forma: Os trens principais, sob as asas, abaixaram normalmente, porém o trem de nariz estava travado, não abaixava e também não recolhia! E lá foi o mecânico de vôo, o Cláudio Batista, descer para o compartimento de equipamentos eletrônicos que fica abaixo da cabine de comando. Uma escadinha dá acesso a este compartimento, e de lá é possível checar o trem de pouso através de um visor. Inesquecível a cena dele voltando: parou na subida da escadinha e falou, só com a cabeça pra fora: - Cara, a porta está aberta, dá pra ver as luzes da cidade, mas o componente principal (o “strut”, estrutura que dá resistência ao trem de pouso) está aqui dentro!!!". Então fizemos o resto do procedimento, tentando abaixar o trem com o uso de uma manivela, mas não adiantou nada!

Depois, com aquela sensação de "agora fedeu", chamamos pelo rádio a engenharia de manutenção, que nos disse que acordariam (já passava da meia noite) um engenheiro especializado no Airbus para nos ajudar. Ficamos sobrevoando Fortaleza e depois de uns 40 minutos o tal do engenheiro conversava conosco pelo rádio. De nada adiantou os apelativos G-forces, com o Cmt. Neto Jr. dando alucinantes mergulhos seguidos de subidas abruptas, ou ainda curvas de quase 90 graus.

Consumado o fato, o Neto pensou em alijar o combustível, diminuindo assim o peso e velocidade de pouso, bem como reduzindo os riscos de incêndio em caso de algo sair errado no pouso. Seguir para o Galeão não era possível pois o consumo seria muito maior , uma vez que os trens de pouso estavam em baixo (o checklist não recomendava recolher os trens remanescentes, sob pena de piorar a situação. Sugeri que deveríamos esperar o dia clarear e pousar ali mesmo, já que o tempo estava bom, não era uma situação de pouso urgente e de dia tudo seria mais fácil, tanto para o pouso como para o socorro dos bombeiros.

E ali ficamos, por mais de 4 horas esperando o dia clarear e lentamente reduzindo o peso na medida em que consumíamos o combustível. Neste tempo, conversamos muito, nos preparando para o pouso, e comentando sobre os procedimentos a serem adotados após a parada do avião ou mesmo se algo inesperado ocorresse. Também tivemos tempo para bater papo e dar risada, aliviando um pouco a tensão.

Finalmente clareou. Fizemos uma passagem baixa sobre a pista para que a torre de controle confirmasse a situação do trem e então lá fomos nós, com o mínimo de combustível, pra uma, talvez duas arremetidas.

Durante a espera, fui no banheiro dar uma drenada (n٥1) e o Batista disse: - Aproveita que pode ser a última!!! Que hora para fazer piadas!.

O pouso foi feito pelo Cmt. Neto, que, com aquela calma que era característica dele, deu um lambidasso, e lentamente o nariz foi baixando. Pouco antes do nariz do avião se chocar com a pista, com o motor em reverso máximo, cortei os motores nas manetes de combustível e foi um silêncio instantâneo. Os dois segurando o manche “full up”, e compensando o nariz até o limite de “nose up”... O nariz tocou com baixa velocidade, por volta de 60, 80 nós de velocidade, e se arrastou por uns 300m, sem muito barulho. Quando parou, abri a minha janela e olhei pra trás. Imagina a cena dos dois motores encostados na pista, girando ainda bem rápido...Não havia sinal de fogo nem fumaça. Foi então que levei um pequeno banho da espuma dos bombeiros e fechei a janela.

Resolvida a situação, nos cumprimentamos e desembarcamos calmamente pela porta dianteira, que estava quase no nível do solo, sem escada. Eu e o Batista ainda pensamos em voltar pra pegar uma garrafa de água ou outra coisa qualquer para brindarmos, afinal as galleys (as “cozinhas” do avião) estavam completamente abastecidas, mas achamos que iria pegar mal com os bombeiros e o pessoal da Infraero...

Chegamos de Kombi no terminal e parecia chegada da seleção, o terraço lotado de gente gritando e batendo palmas, a imprensa e tudo mais. O Neto deu entrevista pra tv, o pouso foi filmado e saiu no Jornal Nacional. Chegamos então no hotel aonde tinha um monte de tripulantes no café da manhã, e ligeiro a notícia se espalhou. Tomamos café, o Neto subiu pra dormir mas eu e o Claudinho...adivinha? Fomos pra praia e dê-lhe Brahma!!!

À noite, depois de dormir a tarde inteira, voltamos pro aeroporto, o pessoal da manutenção já tinha levantado o avião, baixado o trem e o estavam rebocando para pátio. Fizemos o nosso relatório para entregar para a empresa e para o D.A.C., que após certa insistência nossa, considerou o ocorrido como um incidente. Isso foi bom, pois se fosse considerado um acidente, teríamos que refazer o exame médico da Aeronáutica, arcando com o custo e o tempo perdido, e nós tínhamos acabado de revalidar o tal do exame médico.

O avião quase não estragou, apenas abriu uma pequena fenda próximo ao trem, numa área pressurizada. Parece que dois ou três dias após transladarem para o Galeão, os reparos já estavam concluídos e o avião pronto para voar com passageiros novamente. Após a investigação concluíram que a manutenção havia invertido o alinhador da bequilha (roda do nariz) após desmontagem do trem, por causa de um vazamento do amortecedor. Assim, durante o recolhimento, o dispositivo que serve pra deixar o trem bem alinhado para o recolhimento fez o trabalho inverso e o trem virado prendeu na entrada do alojamento do trem de pouso, e lá ficou.

Mas então foi isso, maiores detalhes e muitos outros "causos da aviation", de preferência ao vivo e com umas geladas pra molhar a palavra e atiçar “los recuerdos”!!!

Grande Abraço,

Ruthner



  • Nas imagens, além do A-300, o Cmt Neto Júnior (que por sinal foi meu instrutor no Airbus), e o F/E Claudio Batista. A foto do meu amigo Ronald Ruthner, eu fico devendo, assim que ele me mandar eu vou incluir.




9 comentários:

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  3. Comandante. Vou colocar esta postagem também no Aeroblog.

    Muito boa, parabéns mais uma vez pelo blog.

    Abraços

    Lisarb (Aeroblog).

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  4. Ola tudo bem?
    Adoro esta lendo suas historias aki no blog e conhecer,a cada historia como era a aviação antigamente.todo dia venho aki para ver se tem uma nova historia,gosto muito quando voçê posta historias como essa.Parabens pelo blog é um dos meu prediletos e ja esta salvo aki em meu favoritos kkkk.
    Moro em aracaju tenho 21 anos e estou tirando o PP,Desejo muito realizar este sonho,tenho Fé em Deus e paciência pois sei que um dia ele se realizará.
    meu Email e Msn:charltonbezoli@hotmail.com
    abrç.
    Charlton bezoli

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  5. Ah, os trens de pouso,sempre fazendo das suas,um dia não recolhem outros não descem e assim vai,bom quando termina tudo bem,gostei do post e fiquei sabendo quem é o comandante Neto Jr.que eu já tinha visto dando entrevista na TV!!

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  6. Pior do que pousar de barriga é ficar 4 horas esperando pelo pior... Mas abrir a janela e tomar espuma na cara não tem preço!

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  7. Em 1989 eu morava em Fortaleza!
    Tinha 10 anos e me lembro bem do ocorrido, passando na TV!!!

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  8. Vinícius Leite de Oliveira20 de janeiro de 2010 21:10

    Olá, Carvalho!
    Primeiro, gostaria de agradecer por nos prestigiar com este riquíssimo blog! Estou iniciando meus estudos para o PP, sou viciado em aviação desde pivetinho! Vivo acessando seu blog aqui, só não comento por vergonha de falar.
    Mas hoje tenho que comentar...

    Cara, meu pai vivia me contando dessa história, quando eu era pequeno sempre duvidava...Fazer o quê, nasci em 89 e nem vi o ocorrido. kkkk Em Dezembro de 2009, ouve um tumulto a bordo de um A330 da TAP, o mesmo ficou órbitando por aqui em Fortaleza. Como meu pai não se esquece dessa história do A300, ele lembrou logo dessa emergência e ficou me contando. Quando meu pai me conta essa história, eu já fico louco, tentando imaginar como havia sido...Então, não preciso dizer como estou ao ver esse relato, né? kkkk Matei minha curiosidade sobre o evento ao máximo! Uma maravilha! Vou até mandar o link de seu blog pra ele. :D

    Bons vôos e cavok pra nós! :D

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  9. Agradeço todos os dias por existir internet e dela extrair situações peculiares da aviação nunca antes noticiada, como esta.
    Já voei com pax no VND em 1985, o A300 é a meu ver um avião fantástico, confortável e o mais importante, TEM MANCHE!! kkk
    Cmte. Carvalho, obrigado por manter este seu blog e nos revelar detalhes da vida de um aviador comercial, eu sou fã número 1 deste espaço.
    Obrigado e um grande abraço.

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