sábado, 9 de maio de 2009

Transporte de cargas



  • A 1ª vez que fiz um voo cargueiro foi em 86. Voava o Bandeirante da Embraer, pelo interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O avião, com capacidade para 16 passageiros e 3 tripulantes, à noite era adaptado para transporte de malotes do Correio em voos de Porto Alegre para Santa Maria, e retorno a P.Alegre. As poltronas eram revestidas com uma grande lona que formava grandes bolsões onde a carga era acomodada e amarrada. Assim, o avião ficava totalmente ocupado de carga. O pequeno corredor ficava tão cheio, que um dos comandantes, na época com uma circunferência respeitável, tinha que permanecer na cabine de comando (só havia uma porta na parte traseira para a entrada de carga, passageiros e tripulantes), aguardando o carregamento e após o pouso no destino, aguardar o descarregamento para poder sair dali! Nos voos com passageiros, além da segurança, uma preocupação constante é o conforto deles. Já nos cargueiros, não há esta preocupação, pequenas turbulências, pousos ruins, freadas bruscas ou atrasos, são encarados com mais tranquilidade. Carga não come, não pede, reclama ou causa tumulto. É gostoso voar cargueiro, embora eu prefira voar com passageiros, pois gosto de gente. Anos mais tarde o mesmo se repetiria, mas desta vez, voando Boeing 737 em voos de Florianópolis para São Paulo e regresso. O avião, com capacidade para 109 passageiros, ao pousar à noite em Florianópolis era convertido para o transporte da carga do Correio, no mesmo esquema de lonas envolvendo as poltronas. Ambos os porões sob o piso iam repletos de carga, além da cabine. Pousávamos no começo da madrugada em Guarulhos, onde o avião era descarregado, nova carga embarcada e voltávamos para Floripa, onde então voltava a ser arrumado para os passageiros, que embarcariam pela manhã. Mas o mais bacana foi quando tive a oportunidade de voar em grandes aviões totalmente cargueiros, com peso de decolagem de 275 toneladas, em voos para a Europa, Los Angeles e México entre outros destinos. Estes possuem uma grande porta lateral para o embarque de “pallets” onde a carga está devidamente acomodada. Estes pallets, por sua vez, são travados no piso da aeronave. Por não haver passageiros, nem comissários(as), e na maioria das vezes só homens a bordo (ainda são poucas as mulheres piloto) o ambiente muda bastante. À bordo, a gravata fica abolida, uns gostam de usar uma camisa mais confortável, e os mais flatulentos, até abusam um pouco. Ir ao banheiro para o nº2, é o tipo da coisa desagradável em aviões, mas não nos cargueiros! Pede-se aos colegas que de preferência, fiquem dentro da cabine de comando e por amor a eles mesmos, não saiam de lá até segunda ordem! Então, dá até para levar uma leitura de bordo, a privacidade está garantida. Toda a carga fica separada da área da “galley” (a cozinha, onde está o forno, comidas, bebida e etc.), banheiro, área de descanso da tripulação e cabine de comando, por uma rede ultra reforçada, que seguraria a carga em caso de falha nas travas que as prendem ao piso. Já que voávamos em equipes com 2 comandantes e 2 copilotos, pois as viagens eram longas, havia um bom período de descanso para cada dupla. A acomodação para o repouso podia ser em uma espécie de armário, que ao abrir se transformava em uma pequena cabine com um beliche. Este esquema era conhecido por “sarcófago”. Dava para dormir bem lá dentro. Outro esquema eram as 2 poltronas, padrão executiva, que ,com os colchonetes por cima, e uma mala para apoiar a parte dos pés, ficava muito legal. E por último era o colchonete jogado no piso, e devidamente forrado com lençóis e mantas. Mais umas mantas estendidas para vedar a luz, e nos sentíamos num acampamento. Dávamos muitas risadas, alguns criavam sanduiches e tentavam melhorar a comida que entrava, colocando nos fornos algo que traziam dos pernoites. Cafés, chás e muita conversa era a maneira de passar o tempo. O quê transportávamos? Transportávamos de tudo, inclusive nossas coisas pessoais, sendo que havendo espaço de sobra e controle de menos, ficávamos generosos, trazendo muita coisa pra casa. Vindo de Los Angeles então... Um colega trouxe uma caixa com uma bicicleta, outros, até mais que isso. Aliás, vale comentar, que mesmo após 11/Setembro, quando embarcávamos em Los Angeles, muitas vezes não passávamos por qualquer controle de passaporte, de crachá ou raio-X. Livres para voar. Havia dias que embarcavam centenas de caixas com pintinhos. Trabalho eles não davam, mas em compensação, faziam um barulho, que após algumas horas parecia que você estava numa granja alada! Mesmo com plug nos ouvidos, ficar na área de descanso era cansativo. Somente na cabine de comando e com a porta fechada é que ficávamos livres dos piados dos bichinhos, sendo que após 11 ou 12 horas, pousar e sair do avião era um grande alivio. Havia o transporte de cavalos para a Europa. Na cabine de carga, eram montadas vária baias para acomodar os animais, que viajavam separados uns dos outros. Nestes voos era necessário viajar um tratador, e muitas vezes, também um veterinário a bordo. Agora, troque o inocente piado dos milhares de pintinhos, por um bando de cavalos! Relinchos, espirros, bater de cascos e mais uma porção de sons que eu não sei como nomear. O barulho nem era o mais chato, o problema é que com o acúmulo de urina e fezes dos animais, ao final do voo, o cheiro beirava o insuportável, sendo que após desembarcarmos, parecia que ficávamos por dias com aquele odor impregnado em nossos corpos. Existe todo um controle no sentido do que pode ou não embarcar, no tipo de embalagem das cargas, sejam elas pequenas ou grandes, e até mesmo um controle sobre a agência que aceita, embala e remete a carga à empresa aérea. Quando o avião voa com passageiros, o tipo de carga que embarca nos porões, sofre maiores restrições quanto a qualidade e quantidade, mas se o avião é exclusivamente cargueiro, aí as restrições são mínimas, transporta-se quase tudo.Se em alguns voos nos sentíamos em uma granja alada, outro nos sentíamos num paiol de carga, muitas vezes com substâncias que não podem se misturar, com cargas que podem ser inflamáveis e até explosivas. Já disse que carga não reclama, mas em compensação havia ocasiões que algo dava errado no carregamento ou descarregamento, seja porque a carga era muito justa para passar pela porta, ou defeito nas travas do piso, e nestes casos, o procedimento de embarque ou desembarque poderia demorar horas, momento em que o jeito era relaxar. Eram divertidos os voos cargueiros. Uma boa fase que deixou ótimas recordações.


  • A primeira foto é de um avião Bandeirante, com os malotes do Correio.


  • A segunda é do interior do avião com os pallets.


  • A outra é da acomodação na poltrona com colchonete.


  • E por último, um filminho no aeroporto do México.


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