domingo, 3 de maio de 2009

Mi Buenos Aires Querido

Quantas vezes já fui a Buenos Aires nestes últimos 21 anos? Talvez umas 100, não importa, pois ir mais uma vez, é sempre um prazer. Passeios, culinária, compras boas e baratas, fazem deste pernoite um dos mais apreciados pelos tripulantes. A região do Porto Madeiro está cada vez mais agradável, há o passeio do Delta do Rio Tigre, Ricoleta, La Boca, Caminito e San Telmo entre outros. Quanto à culinária, além das carnes e peixes, descobri uma pizzaria que é fantástica. El Cuartito, lugar simples, barato, frequentado pelos portenhos, e que tem uma pizza com queijo gorgonzola que é dos Deuses. Atualmente, entre o assado de tiras ou os calamares estou preferindo a pizza! Mas vamos voar, e lembrar um fato que ocorreu em 1998 em que o meu nível de apreensão foi alto. O trecho era Rio de Janeiro - Galeão para Buenos Aires, com pouso previsto às 00:30 min. Já tinha voado para lá diversas vezes, a rota é tranquila, cheia de apoio em terra, região sem montanhas ou elevações significativas e aeroporto com 2 pistas grandes, além do tempo que naquele momento era bom em todo o trecho. Talvez por isso eu não tenha dado a devida atenção às previsões para as horas seguintes, nem para as cartas meteorológicas onde estão desenhadas as possíveis frentes frias e outros fenômenos da natureza. Já na descida, próximos ao sobrevôo do Rio da Prata, passamos por uma área com turbulência moderada. Olhando para fora, nada avistávamos, nem mesmo o radar meteorológico mostrava qualquer nuvem significativa, era apenas a instabilidade do ar. O aeroporto estava aberto para pousos e decolagens, pois o tempo estava bom naquele momento e outro avião que seguia à frente acabara de aterrissar, reportando a presença de chuva sobre a pista. Na aproximação final para pouso, ao alinharmos com a pista, deveríamos estar a uma certa distância para a pista, porém observamos que estávamos bem mais afastados do que o normal, pois havia um vento muito forte (100Km/h) atuando na área. Prosseguimos na aproximação, afinal estávamos avistando a pista e o aeroporto estava aberto. O vento não vinha exatamente de proa, vinha um pouco da direita também, então seguíamos "caranguejando", que é quando o avião segue enviesado, para corrigir a ação do vento. A cerca de 1 minuto para o pouso, estávamos com a pista bem na frente, a turbulência dando trabalho, chuva sobre a pista aumentando de intensidade, e os limpadores de pára-brisa que embora sejam eficientes, naquele dia estavam especialmente e incomodamente barulhentos demais, aumentando o nível de adrenalina na cabine. Poderíamos ter pousado e não passar de uma operação com tempo adverso, mas achei que poderia ocorrer algo de ruim naquela tentativa de pouso. Então arremetemos, ou seja , descontinuamos a aproximação, subindo novamente. O que estava ocorrendo, era a chegada de mais uma frente fria, sendo que quanto mais para o Sul, mais intensas, é fortes elas são, e esta avançava rapidamente sobre a região. Foi um apena, afinal, estava muito interessado em ficar em B.Aires, pois minha mulher, que é comissária de uma empresa estrangeira, e coincidentemente estava pernoitando lá e que enquanto me aguardava no Sheraton, viu o mau tempo sobre a cidade, concluindo após o meu atraso, que eu não tinha conseguido o pouso. A opção de aguardar a melhoria das condições de tempo estava descartada, então vamos para a alternativa. Montevidéu é bem próximo, mas estava com nevoeiro, então Porto Alegre era a opção. Na subida, naquele trecho onde a turbulência era moderada na descida, agora ela era forte. Todos com os cintos afivelados, sistema de anti-gelo dos motores ativados. O piloto automático já não respondia a contento, pois as rajadas e correntes de ar eram severas, então desligamos-o e olho vivo nos instrumentos. Aquele momento não deve ter durado mais que 4 ou 5 minutos, mas para mim e para todos à bordo, certamente pareceu bem mais. Já que depois da tempestade vem a bonança, voávamos agora em tempo bom e ar calmo. Deixei a porta da cabine aberta (pré 11/setembro, isso era permitido) para mostrar que a situação estava calma, e fiz um anúncio aos passageiros tranquilizando-os e informando que seguíamos para Porto Alegre. O corpo das pessoas reage a situações de tensão de diversas formas. Uns coçam a cabeça, outros espirram ou gaguejam, ou ainda tamborilam com os pés e as mãos. No meu caso, e naquela noite, minhas mãos estavam geladas! Era o famoso suar frio. Não sou de beber café quando voando, mas essa foi a melhor pedida. Não para beber, mas para aquecer as mãos! Como vôo só acaba quando pousa, ainda havia o que fazer. Como está o tempo em Porto Alegre? Lá é muito comum o aeroporto fechar por causa de nevoeiro, especialmente no período da noite/madrugada. Somamos a quantidade de combustível nos tanques e fazemos as contas. Se lá fechar, e não for possível o pouso, ainda conseguimos chegar em Florianópolis, mesmo que com "as calças na mão", ou seja, com o combustível na reserva. Mas Porto Alegre está aberto e pousamos sem problemas as duas da madrugada. Explicações, esclarecimentos e pedidos de desculpas aos passageiros pelo inconveniente, já que todos seguiram para o hotel para continuar a viagem na mesma manhã por volta das 9 horas. No desembarque ninguém reclamou, pelo contrário, agradeceram elogiaram como se aquilo tudo fosse exatamente o que eles esperavam da viagem. Após o descanso no hotel, foi por volta das 14 horas que aquela mesma frente fria chegou a P. Alegre. Entrou "rachando", com muita chuva e vento derrubando árvores e a alagando a cidade, isso porque já tinha perdido um pouco de sua força, desde que passara por B.Aires. Sem dúvida uma condição nada amigável para a aviação. Depois desse dia, voando para B. Aires, Campinas ou qualquer outro lugar, quero olhar atentamente todos s boletins, previsões, cartas meteorológicas, etc.. Afinal, em rio que tem piranha, jacaré nada de costas.
  • Foto tirada dentro uma nuvem com formação de gelo. Veja o gelo nas palhetas do para-brisa.

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