domingo, 21 de fevereiro de 2010

727 e Gnomos

Todo piloto tem sua lista de aviões preferidos. Já disse que o Electra é um deles, além do Boeing 707, que tem uma beleza clássica. Também falei que o mais bonito é o Jumbo 747, e disse que morro de saudades do MD-11. Que o Airbus A-300 é incrível e que o 737 é demais! Pois agora eu digo que o Boeing 727 é um dos aviões comerciais mais belos e fascinante já produzidos.

O 727 é um trijato que foi fabricado pela Boeing entre os anos de 1963 e 1984, sendo que na década de 70, foi o avião comercial mais popular do mundo. Até a década de 90, era o avião mais comercializado do mundo, quando então foi superado pelo Boeing 737. Seu sucesso se deve ao fato de poder operar em pistas curtas, aeroportos com poucos recursos e voar médias distâncias.

A Varig iniciou as operações do 727 em 1970. Um avião lindo, que com seus três motores na cauda tornava-se extremamente silencioso. Me lembro de ter feito algumas viagens na cabine (infelizmente não tive o prazer de pilotar esta máquina) e reparar que durante a partida dos motores só era possível perceber que eles já estavam funcionando pela observação dos instrumentos do motor (rotação, temperatura e pressão de óleo) de tão silencioso que o 727 era. Possuia uma escada que ficava na cauda, assim, era impactante embarcar e desembarcar passando por baixo dos seu 3 motores. Um avião de outra época; tanto é assim, que ao invés dos bagageiros convencionais de hoje em dia, ele possuia apenas porta-chapéus acima dos assentos, exatamente com nos Electras, e por isso, só era permitido colocar casacos e coisas leves neste bagageiro. Outra característica que encantava os pilotos, era a sua velocidade. O “flecha ligeira” (outro apelido do 727, que tinha um enflechamento das asas mais acentuado que as demais aeronaves) era mais veloz que seus concorrentes, só perdia para o Jumbo 747 em sua velocidade de voo. E este encantamento era justamente um inconveniente para os comissários de bordo. Minha mulher, que era comissária da Varig e voou o 727 em 1987, conta que em etapas mais curtas, o tempo de voo ficava reduzido para que a tripulação pudesse efetuar o serviço de bordo com o requinte exigido pela empresa. Naquela época, o serviço era de refeições quentes, com copos de vidro e bebidas alcóolicas. Na Varig o 727 fazia o melhor das rotas nacionais! Voos saindo de São Paulo ou Rio de Janeiro direto para Recife, Belém, Buenos Aires e Santiago do Chile entre outros destinos.

A fuselagem, embora mais curta, era a mesma do Boeing 707, e a cabine de comando também era a mesma do 707. Uma cabine muito ampla e que contava com a presença de um Mecânico de Voo, ou Flight Engineer. Os colegas que tiveram a chance de pilotar o 727 são muito orgulhosos disso, e sempre comentam que o avião tinha uma técnica de pilotagem diferente dos demais Boeings. Uma das características era que ele “descia como um tijolo”, ou seja, na aproximação final para pouso, o 727 aceitava um ângulo de descida muito mais acentuado que as demais aeronaves. Ele descia bem, e os pilotos contam cada estória que até parece papo de pescador. Também havia uma técnica um pouco diferente para o pouso, já que os três motores ficavam na cauda. Instantes antes de tocar a pista, a movimentação do manche e manete de potência davam à mecânica do pouso um estilo peculiar.Era a técnica Kung Fú de pousar. Dá para imaginar...

Com a chegada dos 737-300 (o Chique), o 727 foi cedendo suas rotas mais tradicionais, até que em 1993, ele foi definitivamente transformado em avião cargueiro.

Os Gnomos


O grupo que ficou voando o 727 cargueiro ficou conhecido como os Gnomos, ou Duendes, pois dizia-se que eles existiam, mas ninguém os via! Eles voavam muito nas madrugadas e não usavam os terminais de embarque para acessar os aviões, pois iam direto pelo terminal de carga. Nos hoteis, andavam em 3 (comandante, co-piloto e mecânico de voo), pouco se enturmavam, e como transportavam somente carga, descuidavam um pouco da aparência. Gravata e quepe? Coisa rara de se ver naquele grupo. Tripulantes chegando e saindo nos horários mais estranhos e vestindo jaquetas maneiras? Só podia ser o pessoal do 727. Havia colegas de empresa que estavam voando o cargueiro há anos, mas não os conhecíamos. Ou então encontrávamos um conhecido e perguntávamos aonde ele andava, em que empresa estava trabalhando. – Na Varig, estou voando o 727 cargueiro!
- Voa o 727 cargueiro? Então está explicado!

11 comentários:

  1. Roberto, Roberto, que grande inspiração! Mais um post, uma alegria a mais! Rsrs!


    Continue sempre assim, nos enchendo de alegria e nos deixando com água na boca com suas histórias de aviação! Sinto uma vontade tremenda de voar após ler teus posts! Você provoca isto nas pessoas com tuas palavras, continue assim!


    Forte Abraço,


    Danilo.

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  2. Poxa Comandante, valeu!!! Fiquei muito contente em conhecer um pouco sobre a aeronave e o que equipe que voa o Boeing 727 acha do avião. O 727 é a aeronave a qual eu mais gosto e mais me chama atenção na aviação. Se eu tivesse meus cursos faria sempre o possível para pilotar os 727s seja em qual empresa ou qual estado for. É muito 10! Gostei da matéria sobre os Gnomos. Que tipo de jaquetas eles utilizavam? Não era obrigado utilizar a farda, grava e quepe? Muito grato, Cmte. Beto. Grande abraço, Arcoverde

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  3. Usavam qualquer coisa! Jaqueta jeans, jaqueta "porsche" (vc nem era nascido na época em que estas jaquetas faziam sucesso!)pullover, jaqueta de couro, capa de chuva e etc...Ninguém enchia o saco daquele grupo, desde que eles cumprissem com suas obrigações. Grupo pequeno é assim, fica meio que marginalizado, e se isso pode ter um lado ruim, também tem um lado bom. Abç, Roberto.

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  4. Adorei o post muito bom saber um pouco mais deste classico da aviação mundial.
    Tenho um velho video aqui em VHS do programa "Voe Comigo" do Comandante Artur, que se passa todo na cabine de um Boeing 727 da Rico Linhas Aereas, o voo é entre Santarem e Manaus,e vai da decolagem em Santarem ao pouso em Eduardo Gomes, é lindo ver esta maquina em ação!!!
    Valeu Comandante!!

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  5. Olá Roberto.
    estou de chegada no seu blog. Legal ter um local informal para lembrar dos tempos de aviação. Não sei se a Luciene comentou com vc, mas deixei a BA.
    O resto explico em outra oportunidade ou por email andre.m.coelho@gmail.com

    gRande abraço para vc, Luciene e filhos
    André Coelho.

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  6. Meu professor de Teoria de Voo, o cmte Filgueira, é aposentado da Transbrasil e pilotava 727, vivia falando maravilhas do avião. Eu pensava que era só nostalgia, mas parece que era uma senhora máquina mesmo!

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  7. um antigo piloto da Varig dizia que os cmtes que voavam no 727 zoavam os do 737 pois ficavam em hoteis melhores e tals...

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  8. Querem rir um pouco, olhem o que estes pilotos no boeing 727 fizerem quando estavam no nivel de cruzeiro, eu ri muito, imaginem o que não acontece dentro desses cocpits hehehhehe

    http://www.youtube.com/watch?v=Qe89KoRoaBc

    http://www.youtube.com/watch?v=zySGbnuQCjg

    Check no 727

    http://www.youtube.com/watch?v=kXCItMTJ51c&feature=related

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  9. 727 é um avião muito lindo! todo sabado as 5:20 da manha ate as 7:00 eu fico no aeroporto de salvador só para ver estas belezas, na variglog, rio, total, :)

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  10. Parabens pelo blog comandante!
    Moro em Campinas, e há uns dias atrás tive o prazer de ver uma aproximação de um 727 da FedEx, a baixa altura....a música dos motores e o por-do-sol fizeram um cenário nostálgico...

    Vladimir

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